
Mesmo que você não queira e esteja conscientemente armado, sabendo que isso tudo é criação de mega-indústrias, estabelecida sobre o nascimento de um pobre cidadão como eu ou você que a gente nem sabe se existiu, a “magia do Natal” te escapa.
São luzes, cores, aromas, tudo o que te faz lembrar uma infância devidamente açucarada pela sua inexata e traiçoeira memória.
Eis você curtindo bode num dia de chuva, longe da família e com umas saudades hediondas sabe-se lá de que. Verdade que se estivéssemos juntos, a TV – O Rei! – seria a protagonista do encontro e estaríamos todos satisfeitos de haver na casa pelo menos um cômodo para cada um se encontrar, a sós, com sua frustração.
Telefonema para os amigos antigos.
Alguns estão, outros não. Felicidades, tudo de bom. Sim, nós temos que nós visitar. É claro, no ano que vem.
Telefones são portais para invisíveis visíveis, finda a ligação, retorno violento à realidade... chuvosa.
Ausências pululantes, meus fantasmas ainda vivos, cultivados com tanto carinho e vitimização, cantam em roda um jingle bells coreano, paraguaio, sem a pretensão de ser original – É só uma lembrancinha, não repare.
Oh, não precisava... nada disso precisava. Mas ainda assim eu não estaria em paz.
Feliz Natal então, mais uma noz, outra cidra, mil papais-noéis de chocolate comidos às escondidas.
Feliz Natal, Papai Noel! Arranca do saco vermelho um de seus duendes em cujas mãozinhas esteja o necessário para aniquilar o meu juízo de chato permitindo, de bom grado, minha participação nessa “magia coletiva”.