quinta-feira, 13 de dezembro de 2007



Bastaria, no entanto, que eu estivesse dormindo no meu próprio leito e que meu sono fosse profundo, para relaxar-se a tensão do meu espírito; então este perdia o plano do local onde eu adormecera, e quando eu despertasse no meio da noite, como ignorasse onde me encontrava, nem mesmo saberia, no primeiro instante, quem era; tinha somente, na sua simplicidade primitiva, o sentimento da existência tal como pode palpitar no íntimo de um animal; era mais carente que o homem das cavernas; aí então a lembrança - não ainda do lugar em que estava, mas de outros onde havia morado e onde poderia estar - me chegava como um socorro do alto para me livrar do nada de onde não poderia sair sozinho; num segundo, eu passava por sobre séculos de civilização e a imagem confusamente entrevista de lampiões de querosene, e depois de camisas de gola virada, recompunham aos poucos os traços originais de meu próprio eu.
Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade do nosso pensamento em relação a elas. A verdade é que, quando eu assim acordava, meu espírito se agitando para tentar saber, sem o conseguir, onde me encontrava, tudo girava ao meu redor no escuro, as coisas, os países, os anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mexer, buscava, segundo a forma de seu cansaço, localizar a posição dos membros para daí deduzir a direção da parede, a situação dos móveis, para reconstruir e denominar a moradia em que se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, dos joelhos, dos ombros, lhe apresentava sucessivamente vários quartos onde eu havia dormido, ao passo que em seu redor as paredes invisíveis, mudando de conforme o aspecto da peça imaginada, giravam nas trevas.

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido.
No Caminho de Swann. São Paulo: Ediouro, 1992. p.23

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Meu pai


Sem que eu espere me vem a imagem de meu pai. Um pai jovem e usando grandes óculos de grau, algo como um cientista tendendo a artista louco, projeto do que ele nunca chegou a ser. Ele me olha entristecido, como se me acusasse de não tê-lo ajudado a ser. E eu sinto culpa.
Seria inútil lembrá-lo de que um dia eu o presenteei com bloco de papéis e lápis especiais e ele chorou, porque esse pai que me surge ainda não sabe disso. Neste tempo eu devo ter quatro ou cinco anos e nenhuma renda própria.
Eu sei lá o que queria dizer aquilo tudo, e nem ousava perguntar. Mas acompanhava curiosa a seriedade das suas mãos empenhadas no preparo das roupas brancas e do banho de ervas. Eram segundas, quartas e sextas.
Houve uma outra vez em que meu pai me apareceu assim, de forma tão presente. Eu havia terminado o meu sei lá que número de baseado e então eu o vi aparecer no quarto. Estava pálido, magro e triste e também me olhava, como agora, com olhos de santo martirizado. Eram quatro da manhã e eu esperei o amanhecer para ligar para casa. De lá ouvi minha mãe dizer que ele havia sido internado naquela madrugada.
Dispenso toda mística incutida nesse relato, meu pai sempre foi uma figura muito estranha. Não podia ter sido cientista, ou artista louco?
Ele montava à cavalo. Uma vez trouxe um bezerro para criar no quintal de casa. Bezerros crescem e podem ser assustadores quando escapam do cercado e vêm dar com a cabeça na porta da frente.
Uma vez ele desenhou um Cristo numa folha de papel A3, seu embrião artístico não detectado. Seria isso agora? Meu pai se confundindo com o desenho do Cristo martirizado?
Eu me lembro de tantas coisas, inúteis ou não. E no instante seguinte eu as esqueço, fazendo com que se lancem em direção a alguma espécie de limbo. Assim como essa imagem de meu pai que me escapa.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007


homem álcool neandertal minha liberdade lateja meu sexo lateja espelha o desejo bruto do outro o desejo é cio e bicho no homem de neandertal eu sou fêmea não frágil e os meus dentes não se mostram para rasgar eles mastigam lentamente até que tudo se liqüefaça a morte não é a ausência é a economia da vida privação do que é caro e eu vou me banhar nos cabelos de algum orixá feminino não mexa com os orixás femininos você não pode olhá-los nos olhos por detrás dos chorões porque seus olhos eles liqüefazem matam os homens de neandertal

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Os Cintos



Como pêndulos presos às poltronas do ônibus, os cintos de segurança realizam, a cada curva, uma coreografia sincrônica.
E ninguém nota.

domingo, 4 de novembro de 2007

Sidi Larbi Cherkaoui

Tudo o que sei é que ele é um coreógrafo belga-marroquino muito jovem, e que deste trabalho participou Erna Òmarsdottir, entre muitas outras coisas, parceira da cantora Björk em seus videoclipes... E que eu adorei isso.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

em gotas


de manhã havia chovido à noite
a manhã continha a chuva que caiu de noite
e tinha uma flor roxa
de manhã
na calçada
molhadinha
gotinhas
na flor roxa
orvalhos tinha
lembrei de que
já estão me lembrando
de que
todo ano tem natal
nostálgico natal
as gotinhas
tinham
continham em si
a lembrança
das luzes de natal
natal orvalhado
lá em casa
na casa roxa
tem gotinhas
sempre tem natal
em gotas
de lágrimas
o meu pai
sempre chora
em gotas
no natal

domingo, 28 de outubro de 2007

Damásio



I
.E se, depois de todos os seus amigos madrugadores de MSN tiverem ido dormir, você continuar acordada jogando Mahjong?
II.Talvez tenha a ver com marcadores somáticos e incapacidade de tomar decisões. No caso, a decisão simples de desligar o computador.
I.Discordo. Essa decisão não é tão simples quanto parece, uma vez que não seja apenas necessário desligar o computador, mas dormir. Para isso você tem que descer, comer alguma coisa... Nesse intervalo, pode ser que você queira ligar a TV, ou qualquer coisas assim. Depois, uma vez na cama (desconsiderando todo o processo de pôr o pijama, ajeitar o lençol), você tem de se entregar ao sono. Logo, trata-se de uma operação de alta complexidade que necessita de uma série de mecanismos e capacidade de formar imagens e mantê-las por algum tempo, envolvendo memória de trabalho, além de outros dispositivos.
II.Hum... procede... E se você ficar cantarolando mentalmente o mesmo trecho de "Faroeste Caboclo" e sentindo muita pena do Santo Cristo por Maria Lúcia tê-lo enganado com seu maior rival?
I.Talvez tenha a ver com algum desejo de não pensar em determinados assuntos infinitamente mais importantes. Ou ainda: com a nostalgia de uma adolescência que, cá para nós, esteve longe de ser saudável.
II.Certo... e se você escrever um texto inútil como se fosse duas pessoas?
I.Pode se relacionar à esquizofrenia. Ou pode ser que você esteja passando tempo demais com Damásio.

sábado, 27 de outubro de 2007

Divertimento à Moda Antiga [Alexandre (Xu) Ficagna]

Lá em casa tem um homem que vive no andar de cima, acompanhado de sons.
Nas vezes em que desce, traz consigo longos abraços de braços longos e quem sabe um pouco culpados de suas ausências.
Tem horas em que confundimos um e outro talvez pela diversão de, logo em seguida, constatar as diferenças. Sim, porque eu não uso o verbo "pedir" no lugar de "perguntar", nem ele tira as sobrancelhas com pinça.
Ele tem cabelos compridos e barba ruiva. É terno e diz as verdades mais doloridas o mais suavemente... Enquanto eu vivo o complexo de brigar com as palavras para que elas não escorreguem da minha boca, acertando alvos quase sempre indeterminados e de forma bastante explosiva.
Dos seus costumes engraçados, um é o de chamar o que faz de brincadeira, "Divertimento". Quando eu, nós, as "pessoas de teatro", se dito o mesmo sobre sua arte, têm o não menos engraçado costume de se zangar.
video

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Eu não durmo...


Um zumbi pequeninho. Morto-vivo de um Romero que eu nem gosto. Presa fácil da Hora Grande e de todas as seguintes, eu não durmo. Que nem Deus que é todo vigília aqui, quando não no Japão.

domingo, 14 de outubro de 2007



E o que dizer dessa política do dissimulado? De fingir que está tudo bem mesmo quando há uma elefoa recém-emperuada não só pisando no seu pé, mas esmagando impiedosamente a sua unha de dedão encravada? Vão continuar dizendo que eu controle o meu gênio, o que se traduz por virar a bunda na reta certa de quem quer te foder sem qualquer menção de afeto.
Aqui ainda tem esse Zen-Budismo de araque tornando as pessoas plácidas, calmas e mentirosas... Está tudo lindo e vamos dançar em círculo, um círculo centrado em umbigos elevados dos quais você nunca iria querer ficar em condição de depender. E se você ficar, pode ter certeza de que você estará sendo demasiado rijo, sua aura estará suja, e a desculpa será a de que o vento leste estava soprando de tal maneira que, adjunto ao Solstício de Inverno, qualquer filhadaputagem se justifica.
Eu prefiro continuar me livrando de cânceres durante o dia ao pronunciar em português bem claro a minha insatisfação. E deixe que me julguem amarga. Quem me conhece (onde estão as pessoas que me conhecem?) ainda saberá do meu jeito bobo e do meu humor infantil.
Ele lá já dizia "Quando acabar, o maluco sou eu"

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Sabe?


Sabe quando você ouve algo e tem certeza de que se tivesse algumas rugas e reumatismos a mais , não teria de ouvir? Ou quando você topa com alguém plenamente adaptado, com um kit de soluções prontas e pouco divagantes e que te faz sentir ainda mais verde de bolinhas pink? E quando você leva uma patada sem saber ao certo de onde veio e, por isso mesmo, não tem tempo de devolver algo ferino e elaborado? Sabe?

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Caros

Caros momentos estes em que você se sente transformando na pessoa que sonhou ser.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Brinquedos


Aos oito anos ela chorava assim, como agora.
A pilha de brinquedos amontoados num canto do quarto.
Chovia. No quarto. Eles todos os dias, na mesma posição, emboloravam aos poucos.
Não havia pais, ou não havia tempo. Ela não podia alcança-los, nem aos pais, nem aos brinquedos.
Ficava sozinha até a noite.
Descobria todos os fantasmas que lhe assombrariam pelo resto dos anos, tomando forma sob a luz amarelada que enchia a casa de sombras.
Ela chorava, embora não soubesse ainda, menos o estrago de seus brinquedos.
Chorava o abandono e chorava mais: a infância se esvaindo enquanto aprendia, como um bicho, a se alimentar e cuidar de si.
Ela chorava os anos que perdia, aglomerando-se em bolor, nas pernas de seus bonecos.

MILK-SHAKE DE MENTA



Alguém podia ligar, você pensa. E se pega sendo patético, carente, esquecido, quando na verdade é um tremendo egoísta sem poder suportar a idéia de que as pessoas não vivam para você.
Tudo porque você pensa viver para elas. O amor, conclui, é uma brecha entre dois egoísmos. E ri.
Sua cara de bobo positivo com fortes tendências a crer na vida. E crê, enquanto toma milk-shake de menta numa tarde quente nas mesinhas de xadrez de uma cidade charmosa.
O corpo explode. “Rompendo em Fé”. A imagem de alguém partindo em dois com letreiros luminosos escrito “fé” saindo de dentro.
Fé na vida explode corpos. Fé no amor, no grande acontecimento que é estar junto, toque com toque, na brecha justa.
Eu quero mais milk-shakes de menta, mesmo que eles não supram telefonemas.

28/03/06

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Forte


FORTE
Forte. Eu sou forte como as amas de leite, como as mulheres dos pescadores, como as pretas apequenadas. O meu corpo é quase pedra, tem mesmo o formato de uma pedra, não me permitindo a vulnerabilidade de uma silhueta muito afilada.
E o rosto, Deus! Um rosto que não combina com esta idade e esta pedra.
É o que sei de mim, o resto não me lembro. Perdi numa cachoeira ou nas diversas vezes em que chovi.
A mãe, o cuidado, a morte se despedindo: você jamais será leve como as meninas que pintam nas bolsinhas das meninas... E o teu perdão nunca vai ser de beijo, mas de nódoa que perde a cor com o tempo.
Nossa Senhora dos Partos, olhai por mim que não sou mãe e tenho algo crescendo em mim. Não alegre como um filho, mas um câncer que ainda vai corroer o meu sorriso e nunca mais há de me deixar catar conchinhas, inflamando muito mais que a garganta.
Mãe, ajuda-me com os homens, que eles sejam meus e eu nunca mais os amamente com o que não posso.

25/11/04

Duas


COMPOSIÇÃO (Dante Milano)


Duas mulheres juntas
Formam desenhos dúbios.

Se numa só há tantas
As duas serão quantas?

Uma na outra transforma
E misturando as formas

No mesmo luar as banho,
Metamorfoses sonho.

Todas parecem uma
A quem a todas ama.




Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Jorge Luis Borges
Elogio da Sombra


domingo, 1 de abril de 2007

Étant Donnés, Marcel Duchamp

No Museu da Filadélfia, que reúne quase toda a obra de Duchamp , o visitante cruza uma portinha e penetra num cômodo pequeno, absolutamente vazio. Nenhum quadro nas paredes de gesso. Não há janelas. Na parede do fundo, embutida num portal de tijolos arrematado por um arco, há uma velha porta de madeira carcomida, remendada e fechada por uma tosca trave de madeira cravejada com grossos cravos.
Não há passagem. Mas se o visitante se aproxima, descobre dois furinhos à altura dos olhos. Se se aproxima ainda mais e se se atrve a bisbilhotar verá uma cena de que não será fácil que esqueça nunca.