
Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade do nosso pensamento em relação a elas. A verdade é que, quando eu assim acordava, meu espírito se agitando para tentar saber, sem o conseguir, onde me encontrava, tudo girava ao meu redor no escuro, as coisas, os países, os anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mexer, buscava, segundo a forma de seu cansaço, localizar a posição dos membros para daí deduzir a direção da parede, a situação dos móveis, para reconstruir e denominar a moradia em que se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, dos joelhos, dos ombros, lhe apresentava sucessivamente vários quartos onde eu havia dormido, ao passo que em seu redor as paredes invisíveis, mudando de conforme o aspecto da peça imaginada, giravam nas trevas.
No Caminho de Swann. São Paulo: Ediouro, 1992. p.23