sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Preserve os metacarpos



Ao contrário do que eu gostaria de acreditar, do que as propagandas procuram vender, ou as novelas queiram incorporar, tenho presenciado diversas restrições ao amor.
Alguém bate à minha porta chorando porque os pais desconfiam de seu relacionamento homossexual, e lhe aplicam torturas chinesas para arrancar-lhe o nome de seu "aliciador". Outro está comoventemente apaixonado e é recíproco, mas vai se casar e não pode deixar de honrar o compromisso assumido. Três corações numa caixa de fósforos.
Há ainda quem esteja casado a anos, e precise lidar a esquizofrenia de seu par, que o acusa de não amá-lo. Quem seja conduzido e apanhado frente ao trabalho e censurado caso esteja conversando com qualquer espécie do sexo oposto. Há quem tenha medo de amar demais e, por isso, prefira terminar o relacionamento "enquanto é cedo". Quem tenha sido dispensado por telefone de um namoro de anos. Quem passe o dia esperando uma ligação que não vem. Quem pense nos filhos, e somente neles.
Há uma comoção geral e indiscriminada pela morte do amor ou sua impossibilidade de realizar-se.
Para não partilhar dos ritos funerais, eu me sento e olho tudo com o dedo na tomada. As minhas falanges todas já se perderam, mas o complicado mesmo é encarar a vida tendo apenas metacarpos pra me proteger.