sábado, 8 de fevereiro de 2014

Minha mãe


A preta na cozinha é a mãe de todos: dos dela, dos outros, dos filhos de seus filhos. Tem um remédio para cada dor, e desconhece a dúvida. Mal tinha curvas e as crianças escorregavam para dentro dela, depois para o mundo.E foi longo o tempo em que ela nem desconfiava de como isso acontecia. Teve dois homens: um que o pai mandou e outro que o coração escolheu. Todos mirrados de corpo e de amor. De modo que ela, também miúda, precisou  se estender tecendo um mundo inteiro: a hora certa de comer, as roupas de trabalhar e as de sair, as simpatias e versos para curar umbigo, crescer cabelo, espantar visita ruim. Pariu cinco. Quatro crianças e uma criatura torta, em nada parecida com os outros. Bicho quieto com olhos pra tudo e cheio de por quês. O maior bebê dela custou a ser parido e chegou roxo de falta de ar. Foi tanta força pra empurrar a criança pra fora que ela seguiu indo sozinha pro mundo. Não mamou, não pediu e desgarrou cedo. A preta na cozinha sustentou a ordem de tudo se queimando no fogão enquanto fazia brotar cheiros, caldos e gulas. Distribuiu entre os filhos cascudos e broncas. Mas não proibiu nunca. Aprendeu a manifestar uma dor no peito aqui, a derramar uma lágrima ali, a sentir uma tristeza acolá sempre que um lhe contrariasse. Ninguém se sentia mandado e todos obedeciam. Assim pôde ver crescerem todos. Um a um debaixo de suas asas morninhas de quem não proíbe o lado de fora do mundo, mas muito pouco encoraja a sair de dentro. Todos são seus: os dela, os dos outros, os filhos dos filhos. Menos a criatura torta que ela pariu por último. Só resta  pedir pela moça nas orações de toda noite, já que para essa nem se põe lugar na mesa: quando volta enche a cozinha com histórias sabe-se lá de onde. E não senta, porque está sempre de passagem.

3 comentários:

Junior Romanini disse...

Que lindo

Liuka disse...

Lindo é tu de vir me visitar aqui nesse cantinho. Obrigada, Ju.

Valise disse...

linda mãe preta acalenta, alumeia, guia