
Eu costumava dizer que todo mundo devia fazer Artes Cênicas algum dia... E justamente por ter escolhido fazê-lo, topei ainda com as profissões de garçonete e de Call Center. Como a resultante monetária em quaisquer dessas profissões não é lá muito interessante, melhor é torcer para que me tragam algum crescimento ético. Enquanto isso fica aqui um registro azedo das minhas experiências, disfarçado em dicas de bom convívio:
O Ator:
- Se você perguntar a alguém o que ele faz e a pessoa te responder que é ator (músico, artista plástico...), não emende coisas como “Ah, que legal... mas qual o seu trabalho?”. Isso denota ignorância, e até alguma arrogância presente na idéia de que você sabe quais são as atividades que podem ser consideradas profissões e quais não;
- Não pergunte se a pessoa tem por objetivo conseguir trabalho na Globo. Esta emissora, embora disponha de muitos recursos, produz coisas medianas e que nem sempre interessam ao ator. Além disso, há uma série de outras coisas envolvendo interpretação que ele possa querer fazer;
- Às pedagogas, coordenadoras, diretoras e afins: não peça ao seu professor de teatro para montar uma “pecinha” de “Dia das Mães/ Pais” ou coisa do gênero; para montar “pecinhas” você pode contar com “qualquer unzinho”, não precisa de um profissional;
- Não seja inconveniente: quando uma pessoa disser que é ator, não diga coisas como “Ah, é? Faz uma cena para mim então!”. Intimar alguém a provar algo relativo a qualquer aspecto de sua vida é quase sempre uma atitude grosseira e que pode irritar;
- Aos Prefeitos, Secretários, Organizadores, etc: não peçam para que os atores se apresentem gratuitamente. Além de ser uma canalhice, este pedido desconsidera que, além de comer, vestir e ter outras necessidades básicas ou não, atores pagam impostos, contas de água, luz, etc. como todas as outras pessoas (excetuando os nossos governantes, claro).
O Garçom:
- Ao chegar num estabelecimento, se ele te saudar, não deixe de responder;
- Não o chame com um assovio, nem “psius” ou coisas do gênero. Se ele estiver usando um crachá, será de muito bom tom chamá-lo pelo nome. Se não, levante a mão e ele virá até você;
- Só o chame quando você tiver feito a sua escolha ou se desejar que ele lhe dê alguma sugestão: perguntar que pizzas, sucos ou pratos há na casa está fora de questão: um garçom não dispõe de memória incomum, e o fato de ele trabalhar em uma casa não significa que tem de ter decorados todos os produtos que ela oferece, é para isso que servem os cardápios;
- Se quiser mudar de mesa após ter feito um pedido, avise a ele. Assim ele fará a transferência devidamente e isso evitará que ele tenha, por exemplo, que arcar com produtos que “sobrarão” sem pagar no fim do expediente;
- Seja gentil: no caso de o seu pedido estar demorando a chegar, diga isso ao garçom e peça, por favor, para ele verificar. NÃO GRITE: ele é somente a pessoa que entrega os produtos aos clientes, portanto, o motivo da demora está, possivelmente, nos setores anteriores;
- Facilite: não fique com os braços na frente do prato ou com os talheres dentro dele quando o garçom for te servir ou recolher a louça após a refeição. E não há problema algum em erguer o seu prato à altura que ele possa alcançar;
- Não peça para que ele corte o alimento para as crianças: possivelmente ele ficará constrangido com esse pedido além, é claro, de ter mais coisas para fazer. Essa é uma tarefa do responsável pela criança;
- Ao fumante: leve consigo o seu isqueiro ou fósforo: nem sempre o garçom tem um para emprestar e, se você chamá-lo a cada vez que for fumar um cigarro, pode atrapalhar o seu trabalho;
- Caso você perceba que está havendo na casa uma movimentação de encerramento (facilmente reconhecível por cadeiras empilhadas), procure demorar o mínimo possível: depois que você for embora ainda haverá muito trabalho a ser feito e a maioria das pessoas que trabalha neste tipo de estabelecimento não recebe hora-extra;
- Poucas casas repassam os 10% cobrados na conta aos seus garçons, portanto, deixar para eles uma quantia em dinheiro, ainda que pequena, é uma atitude altamente elegante.
O Call Center:
- Fale devagar e claramente: muitas vezes a aparente debilidade do atendente se deve aos aparelhos obsoletos de que dispõe;
- Não inicie a conversa com xingamentos, isso só fará com que ele tenha menos vontade de atendê-lo;
- A culpa pela falha pela qual você ligou para reclamar quase nunca é dele, portanto, procure obter o máximo de informações com a maior tranqüilidade possível para então, se for o caso, dar entrada a queixas junto a órgãos de defesa do consumidor;
- Agradecer, desejar um bom dia ou qualquer outra gentileza tornará o atendimento menos ruím para ambas as partes.