domingo, 10 de novembro de 2013

a noite mais quente do ano


é a noite mais quente do ano ela disse e quem se importa que sejam duas da manhã quando a luz do poste está queimada e tudo o que você quer é dormir para que amanhã seja outro dia sabe-se lá como mas não mais este melhor que este diferente deste amanhã amanhã amanhã os homens cantam e conversam e fazem apostas enquanto trocam a lâmpada e quem os culparia por isso se você estivesse trabalhando na noite mais quente do ano certamente trataria de fazê-la mais feliz não há nada de romântico nisso fora das páginas do pequeno príncipe e mesmo lá é de uma beleza cruel imagine o acendedor de lampiões como alguém com olheiras perpétuas e que engraçado a sua imagem é quase assim no espelho mas hoje você sorri para ela invés de pensar em alguma desaprovação e que direito mesmo a gente tem de entrar assim na vida dos outros bagunçar tudo e então ir embora atrás de um novo emprego uma boca nova menos tédio e que direito o outro tem mesmo de nos oferecer essa ilusão de que é exatamente o que queremos ao menos nesse momento e que seja esse momento de novo e outra vez e amanhã de novo amanhã amanhã amanhã a vida nada mais é do que uma sombra que anda de quantas sombras terá sido feita a luz do poste durante sua vida útil vida útil ninguém se importa com as vidas inúteis a não ser à medida em que atrapalham o bom andamento das úteis e não há mais nada que arrancar para diminuir o calor já pensou se a gente pudesse tirar a pele tanta coisa se resolveria ou se poriam outras em seus lugares porque a ignorância não morre é maior que macbeth maior que a vida desse corpo diminuto e empapado de suor hoje seria impossível dormir de conchinha a gente idealiza e fabula sempre esquece que viver junto tem dessas coisas na verdade a gente é ensinado a buscar desesperadamente por outro corpo é quase pecado viver só e se estamos bem assim é porque temos algum problema segundo todo mundo que é um ente esmagador e cruel será mesmo que estamos dispostos a tanta abdicação no momento o desejo era só de ventilador outro banho não adiantaria e os homens ainda estão lá tudo bem então reformulando o desejo era de ventilador e de um sonífero ou de uma incrível tolerância a isso tudo no exato momento dessa ideia vem a culpa porque anestesiar-se também é estar ausente e é por isso que o mundo está assim e crianças homessexuais são destratadas na sala de aula e os comediantes oferecem bananas aos negros e as mulheres apanham e são mortas por seus cônjuges ok começando de novo o desejo é permanecer no mundo e alerta mas dormir bem mesmo que seja a noite mais quente do ano como ela disse e os homens estejam cantando e fazendo apostas enquanto trocam a luz queimada da rua em frente a esse quarto habitado pelo pequeno corpo empapado de suor para que amanhã amanhã amanhã ele possa tomar todas as decisões cabíveis no dia que não é mais hoje mas que virá embebido na memória dela

Um comentário:

Fellipe Miranda disse...

Excelente. Mesmo, mesmo. Um monólogo embreagado.