segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Ocupe-se (mas não consigo)
sábado, 16 de junho de 2012
Sobre espartilhos com zíper e a morte do amor
Eu hoje fui a uma loja de lingerie. Queria um espartilho, com cinta liga, meias e tudo.
Acho que não é exagero dizer que, na maior parte das vezes, uma mulher quer um espartilho para usar com aquela pessoa pela qual tem carinho, com quem a intmidade já rendeu boas transas. Um espartilho tem a intenção de experimentar variações e, antes de tudo, criar um tempo-espaço outro com o nosso par/trio/roda.
O espartilho, não raro, vem acompanhado de um striptease. E, como não somos strippers, de alguma insegurança ou vergonha que vale passar pelo depois.
Não é nem de longe uma peça confortável, e a gente não usa senão para tirar. Melhor: para ser tirada. Isso envolve paciência, mergulhar no corpo alheio e voltar à superfície de quando em quando: divertir-se, deleitar-se. É um prelúdio caprichoso, e a graça é saber, desde sempre, no que vai dar.
Pedi um branco, porque vermelho, no meu estado seria ainda mais arrebatamento, e adoro preto, mas não para esse momento. A moça me trouxe dois modelos... com zíper (!), na frente!
Tive que reprimir a lágrima: estava dado mais um sintoma da morte do amor. Sim, porque tudo bem, os amantes têm um objetivo claro. Mas não sei sobre maior prazer que inventar curvas, tomar atalhos, divagar no caminho até ele.
Sai de lá com as mãos vazias, e sem vontade de perguntar sobre aquele modelo "antigo" à mocinha que tinha me apresentado o zíper com tanto entusiasmo.
Já na calçada, disfarçando uma cara semelhante à de quem chupou limão, a música do Belchior (assim, brega mesmo, que o amor tem disso) ecoava em minha cabeça: "Prá eu ter tempo, tempo de me apaixonar..."
terça-feira, 12 de junho de 2012
Perplexas
Uma bruxa é uma fêmea - que, porventura, mora dentro de alguns homens também. Antena parabólica, satélite, captador universal. O perigo dessas transmissões se dirige a ela, sobretudo. As fogueiras, mesmo as pós-modernas, não queimam além da casca. As bruxas estão em combustão perplexa, segundo a segundo, internamente, ante à vida. E as chamas são, justamente, o combustível de sua existência. Verter sangue junto com as luas é caminhar ao avesso do sol, que escalda.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Instruções para lembrar de si
domingo, 22 de abril de 2012
Domingo, antes do inverno

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Isso é arte?!
“Performance”, do inglês, está quase sempre atrelada ao “bem fazer” algo. E se conecta ao universo dos atletas, das máquinas, do desempenho sexual, do “show”. Por isso mesmo, há, entre os artistas da performance, quem busque por outros termos para se referir a ela. E quem milite para que essa nomeação seja entendida principalmente como algo referente à arte.
Ainda que se conquiste o ideal da performance subentendida como arte, sua amplitude abarca, do mesmo modo, distribuir papéis em branco nas ruas, travestir-se e dublar músicas numa boate, receber voluntariamente um tiro, construir e acoplar a si um terceiro braço, suspender-se por ganchos na pele, impor-se restrições vitais como passar um ano sem sair de casa e sem se comunicar, ou empreender rituais fetichistas de dominação e sujeição. Os exemplos e a diversidade se expandiriam tanto que me seria impossível terminar este texto.
O meu encantamento com a performance reside justamente neste paradoxo: ela não obedece a uma forma e, embora se possam detectar alguns dispositivos comuns às ações que se abrigam sob esse nome, seria ingênuo falar sobre uma “técnica” de performance. Ao mesmo tempo, e em decorrência desssa característica aberta, é comum que os artistas de performance sejam confrontados com formulações como “Isso é arte?”, “O que isso significa?”, “O que você quis dizer com isso?” ou “Mas isso até eu faço!”.
Além da irritação ou divertimento que estas frases podem causar, elas carregam uma série de concepções que a performance e a arte contemporânea em geral desestabilizam. O “isso” está pautado no bem fazer, na representação e linearidade do discurso que “quer dizer” algo “através” de algo, na concepção do artista como virtuose e, portanto, situado num patamar superior ao homem comum.
Estas frases nos permitem chegar mais perto não de uma definição, mas de um conjunto no qual a performance opera. Ainda que hajam processos criativos bastante rigorosos (e outros mais maleáveis), performar parece estar ligado a um modo de vida idiossincrático, de reinvenção a partir do sublinhamento daquilo que se entende por normalidade.
Neste fazer artístico, ressaltam-se traços do hábito que o tornam questionável. A performance cria uma realidade outra, na qual a lógica vigente não é senão a sua própria. No contexto, sim, “isso é arte”, mas enquanto firmada no jogo tácito entre o performer e o olhar – envolvimento e disponibilidade – daqueles a quem participa suas ações.