
Me deram uma folha em branco para que eu declarasse a próprio punho o motivo de minha saída. Respirei fundo e paralisei, amedrontada com a imersão repentina numa liberdade impensada. Eu teria tanto a dizer. Eu disse tanto, tantas vezes, a quem não podia mais do que ouvir.
Perguntei à mulher atrás do balcão - negra, trinta e poucos anos e meio, funcionária pública e um olhar de gado cabisbaixo - o que eu devia escrever. Ele me ofereceu um modelo, que eu copiei: nome, RG, colégios e aulas das quais eu abdicava, e o motivo. "O faço por motivos particulares".
Cheguei a começar a escrever os motivos reais, ia escrever "choque de ideais" ou "choque com a administração", seguido de "condições inadequadas/insalubres", mas parei no "cho". Cloquei-o entre parênteses e passei-lhe um risco no meio. Fiz com esse "cho" o mesmo que com tudo o que eu teria a dizer, e me senti sendo conivente, covarde,(coagida?), qualquer coisa nessa região entre a garganta e o peito.
Pensei em J.D.R, em sua acertividade, no que ele teria feito ou dito, em como ele "mostraria para eles"... E me lembrei de uns dias quentes em que eu o vi calar para permitir que as coisas ficassem como são.
Logo eu estava preocupada com o que seria agora, sem este, até então, maldito emprego. Alguma coisa saiu errado: a sensação de liberdade que eu havia imaginado sentir, a força que eu supunha ter esse ato, a coragem, tudo isso passou a ser medo das conseqüências.
Já no ônibus, deixei de descer para, ainda que gentilmente, cobrar do motorista o seu atraso. Assim como deixei de mudar de poltrona ou de olhar feio para o adolescente atrás de mim acompanhando com os pés a música alta em seu MP3. Deixei mesmo de puxar a cortina para esconder o sol batendo no meu rosto.
Fiquei no mesmo lugar, com minha bunda esparramada confortavelmente e assoando o nariz, enquanto era levada para casa. Tenho a impressão de que crescer é , antes de tudo, tornar-se um completo manso.